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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O gato Gaspar


Não sei se foi quando o céu espirrou e choveu ou se foi depois, muito depois. Quando escureceu, eu tive medo, arrepios na barriga e no umbigo. 
Era uma vez um dia em que não tinha nada para fazer. Fui para a rua e lá estava ele, no terraço, deitado nas telhas: o gato Gaspar. O corpo longo espalhava-se pela pata direita esticada à frente, manchas acinzentadas e brancas que se misturavam no corpo. O gato Gaspar não sai muito à rua. Dorme horas e horas, todos os dias, num cesto de viga que parece uma boca gigante sobre os azulejos brancos da cozinha. "Gaspar, Gaspar"… O gato Gaspar gosta de lamber a manteiga quando as torradas estão quentinhas e depois corre para junto de nós, com olhos de esmeraldas verdes e patinhas luminosas no ar. 

(Historinha ainda em processo de escrita)

Cristina Néry

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O pirata que dormia de dia

Era uma vez um mapa com linhas compridas e tortas como as das nossas mãos e um pirata. Tinha poucos dentes e uma pluma de pássaro azul na lapela da jaqueta que usava, forrada de cetim encarnado. Os piratas vivem nas ondas eriçadas do mar e só vêm a terra quando o céu fica como uma lâmpada que apaga e acende, como nos dias das trovoadas. Os piratas têm olhos raiados de cor de rosa, trazem a lua ao ombro e não voltam nunca a passar pelo mesmo lugar. Os piratas têm que ser maus para ser piratas. Mas, este pirata não gostava de ser mau. A sua tarefa no navio era estar de pé, todas as noites, vigilante, a contar as ondas e à espera, à espera, à espera que a maré enchesse. O avô, também ele pirata, feio e mau e com muitos, muitos anos, ensinara-o a contar o tempo pelas ondas. Este pirata não era como os outros piratas. De dia dormia e quando a noite chegava, corria para a proa do navio e adorava ver as estrelas a mexerem no céu escuro. Olhava o mar e os peixes que se enrolavam nas ondas. Às vezes, até parecia que perdiam as escamas. Enquanto olhava as ondas sentia o escuro da noite muito perto dele e sentia arrepios no peito. Depois, trepava ao mastro mais alto do navio para ficar longe de todos aqueles que já tinham adormecido. E vigiava em silêncio. Depois, zzzzzzzzzzzzzt! Escorregava pelo mastro em grande velocidade até cair de pé com as botas pretas nas tábuas rijas por cima do quarto do avô. E ali ficava. O vento acabava por lhe embalar o corpo até à madrugada e adormecia com a chegada dela. Na manhã seguinte, o sol mordia-lhe a cara, forte e brilhante e ele rebolava o corpo nas tábuas mornas do navio. O leme, mesmo em frente a ele fazia uma sombra que lhe parecia uma aranha gigante. A claridade ardia-lhe nos olhos. Então, o seu sonho era que por uma só noite o escuro durasse para sempre e que as estrelas o iluminassem para ser só ele o comandante do navio só por uma vez. Queria ser para sempre o capitão. Imaginava, depois, o vento a rebentar com força nas velas, o silvo agudo das cordas e ele a fazer-se um gigante, a ponta dos dedos no chapéu do avô esticado em ângulo agudo para o horizonte. E, com uma pancada leve, encaixou o chapéu na franja desgrenhada do seu cabelo, protegeu os olhos do sol e com o queixo tenro e bicudo apontado para a frente ordenou às nuvens que se desviassem. O navio deslizou mar fora e era outra vez noite aos seus olhos. À frente uma pirâmide de marés revoltas para ser dominada pelas suas mãos pequenas. "Ahoy! Sou o pirata dono deste mar!" Mas, um barulho estremeceu-lhe o coração, as mãos tremeram no leme... Era o avô que estava ali e com a sua voz grave e séria lembrou-lhe que era manhã e estava na hora de acordar! Logo agora que o navio estava a chegar à lua.

14_04_ 2013_Cristina Néry

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Tobias, o caça dragões


        O meu vizinho Tobias caça dragões encarnados todas as manhãs. Em cima do cavalo feito do cabo da vassoura gasta, dobra os joelhos e corre como se seguisse o vento num túnel de fumo. Na floresta, o jardim dos peixes vermelhos e do canteiro dos malmequeres, sempre que amanhece e o sol desliza pela janela, as crinas do cavalo fumegam e as patas peludas e finas estão prontas para a viagem. Sua majestade Tobias ajeita o focinho do cavalo, com ternura e a pena do chapéu e prepara a caçada com ganas de rasar o relvado e de lhe dar um safanão porque sabe que nos arbustos redondinhos e verdes se escondem as criaturas selvagens, perigosas e borbulhantes que bufam ai e ui. Tobias ziguezagueia a espada afiada no ar e arrasta as mãos no cabelo, um guerreiro. O problema é que no jardim, perto da macieira mágica que cheira a canela, está sempre o Sr. Cristóvão, o jardineiro, e o seu gato Trufas. E quando o Tobias se preparava para enfrentar a criatura mais terrível, esbarrou nos dois e levou um safanão que o fez voar dali para fora. Quando aterrou no chão, 0 coração mexeu-se de cansaço e levantou-se com um ar amuado. O mais certo era que não voltasse tão cedo ao jardim.

cristina néry

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O assobio da cobra


Quando o sol que traz luz ao dia não se mostra e resolve descansar, apareceu uma cobra. Uma cobra tem a forma de uma escama de peixe gigante, é da cor da água e tem uma língua avermelhadamente afiada que faz o barulho de um guizo. 
Era uma vez a cobra Esmeralda-Esmeraldina que deitava a língua de fora e salivava entre as flores só porque queria poder falar. Mas, as cobras têm a voz invisível! Então, zangada, enrolou o corpo em espiral e subiu aos troncos de todas as árvores em poucos segundos.
Ilustração de Martolita-Marta Jacinto
A cobra Esmeralda-Esmeraldina gosta dos segundos do tempo e chega sempre a horas. Não gosta de perder tempo. Vive na terra, entre as raízes silenciosas das árvores e das flores. Passa a vida a viajar, luas após luas, sem parar e mexe o corpo de seda ao som do ar. Entre os dias, desliza na noite, vê no escuro e assobia:

nas sombras que a noite deita
redonda, ao olho da lua,
vaidosa, rasteja a cobra
para descobrir onde o sol amua.

                                                                                                                                      Cristina Néry

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A coruja Amália


     Quando o céu está muito carregado, os olhos ficam pesados de histórias. Sou uma inventora de histórias. Por exemplo, pássaros. A minha melhor amiga chama-se Amália e é uma coruja.
A coruja Amália é uma criatura que se alimenta de caramelos e broas de açúcar. Acorda sempre mal disposta e é a vizinha da janela ao lado. Vejo-a daqui sentada. A Amália não conversa muito mas é preciso que se note que me convida sempre para o chá. O sinal é a Árvore-Labareda. Quando o sol desce directo ao jardim gigante e verde, escapo-me de galho em galho pela janela do quarto e aproximo-me. (As minhas meias riscadas e vermelhas protegem-me do combate com os rasgões das folhas.) E em quinze minutos,  passando e circulando, estou à mesa da Amália para o chá a fumegar no pequeno bule de vidro. 


(Ilustração-estudo roubados a Marta Jacinto) 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A rainha da barriga grande


Era uma vez um jardim que era como uma manta de retalhos de muitas cores. Aqui vivia a rainha da barriga grande. Numa noite em que não dormiu bem, sentou-se na cama de ferro gigante de cara para o ar. Fez força nos olhos - o corpo era grande, redondo, gigante! Só depois de fazer muita, muita força pode caminhar para o seu mini-palacete de banho. A banheira de espuma esperava-a. Aquele encontro matinal estava marcado todos os dias com um infinito cuidado: a luz do sol vinha bater em cheio na janela arqueada!
O reino estava lá fora. As noites deste reino da rainha da barriga grande eram maiores que os dias. Haviam poucas horas de luz e só quando o sol brilhava no céu, as criaturas saíam todas para a rua. Mas, a rainha da barriga grande, não. Tinha um manto rosa descomunal e usava uma coroa de esferas e diamantes onde pousavam os insectos voadores que lhe provocavam cócegas no cabelo. O reino não gostava da rainha porque ela tinha a barriga grande e não desfilava como uma rainha leve e elegante. Andava com os calcanhares levantados para parecer mais alta do que realmente era e dos vestidos aos folhos só lhe saíam pó e migalhas dos bolinhos de mel que gostava de comer a toda a hora. Nunca fora vista em lado nenhum. Mantinha-se só no palacete e pesava tanto que era capaz de não sair do lugar durante dias e dias a fio.
Uma noite, a rainha, furiosa e farta de não se poder mexer, empinou a barriga com tanta raiva que caiu da cama, rebolou pelo salão do palácio, saiu pela janela e acabou no fim das escadas a olhar para o céu. Naquela altura, rebentou um relâmpago gigante a noite iluminou-se e fez-se um dia glorioso. 
A partir de então, os habitantes do reino passaram a ter dias maiores que a noite e a rainha da barriga grande passou a vir sempre ao jardim receber o reino e o sol redondo e dourado que àquela hora acendia no céu escuro da cor dos bolinhos de mel.

cristina néry

domingo, 9 de dezembro de 2012

A menina Julieta


Há uma buganvília de ramos muito fortes a crescer na janela de minha casa. De manhã, abre em juba e estala em violeta com a luz.
Era uma vez a menina Julieta que tinha a mania de falar sozinha. Brincava tanto, tanto, que os dias só chegavam ao fim no fundo da sua cama. Talvez por dia a dia cirandar, Julieta ficava toda avermelhada de tanta correria e com os olhos vivaços até anoitecer. Havia vezes, que quase adormecia em pé até porque não gostava nada de dormir.


Só na chuva, pasmava. Molhava o corpo todo e fugia. A chuva - é nela que o corpo da gente se perde e ganha rapidez – e Julieta transbordava na chuva. O cheiro da terra fazia-lhe comichão nas narinas e dava muitas gargalhadas pegadas umas às outras.


Esta manhã, Julieta acordou muito cedo. Tinha a cara áspera e vagarosa. Esfregou-lhe as mãos e depois soprou-as: assobiou…  E espantou os gatos que estavam espalhados em estendal pela rua.  Espalhados de encontro à chuva, esquisitos na rua àquela hora, com tanta chuva a cair, as patas aninhavam entre as pedras molhadas. É que os gatos não gostam de chuva. Encolhem-se em silêncio bigodes dentro.



Julieta encostou o ouvido à chuva que batia contra a rua e o chão a gotejar. Chover, demora, é durante um dia inteiro. Julieta queria contar as gotas da chuva todas mas nunca conseguia passar das da janela de vidro. E as gotas não paravam nunca. Parecia que, assim, vigiadas por ela, cresciam ainda mais. Sentada nos joelhos, partiu então para parte incerta. Ora, bolas! Fugiu dali e foi bailar com a chuva.

Cristina Néry