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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O assobio da cobra


Quando o sol que traz luz ao dia não se mostra e resolve descansar, apareceu uma cobra. Uma cobra tem a forma de uma escama de peixe gigante, é da cor da água e tem uma língua avermelhadamente afiada que faz o barulho de um guizo. 
Era uma vez a cobra Esmeralda-Esmeraldina que deitava a língua de fora e salivava entre as flores só porque queria poder falar. Mas, as cobras têm a voz invisível! Então, zangada, enrolou o corpo em espiral e subiu aos troncos de todas as árvores em poucos segundos.
Ilustração de Martolita-Marta Jacinto
A cobra Esmeralda-Esmeraldina gosta dos segundos do tempo e chega sempre a horas. Não gosta de perder tempo. Vive na terra, entre as raízes silenciosas das árvores e das flores. Passa a vida a viajar, luas após luas, sem parar e mexe o corpo de seda ao som do ar. Entre os dias, desliza na noite, vê no escuro e assobia:

nas sombras que a noite deita
redonda, ao olho da lua,
vaidosa, rasteja a cobra
para descobrir onde o sol amua.

                                                                                                                                      Cristina Néry

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A coruja Amália


A minha melhor amiga chama-se Amália e é uma coruja. A coruja Amália é uma criatura que se alimenta de caramelos e broas de açúcar. Acorda sempre mal disposta e é a minha vizinha da janela do lado. Vejo-a daqui sentada. 
A Amália não conversa muito, mas é preciso que se note que me convida sempre para o chá. Quando o sol desce ao jardim, escapo-me pela janela do quarto e aproximo-me. E em quinze minutos, estou à mesa da Amália para o chá que já está a fumegar no pequeno bule de vidro. 
A Amália não gosta muito de falar. É uma inventora de histórias.

(Ilustração-estudo roubada a Marta Jacinto) 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A rainha da barriga grande


Era uma vez um jardim que era como uma manta de retalhos de muitas cores. Aqui vivia a rainha da barriga grande. Numa noite em que não dormiu bem, sentou-se na cama de ferro gigante de cara para o ar. Fez força nos olhos - o corpo era grande, redondo, gigante! Só depois de fazer muita, muita força pode caminhar para o seu mini-palacete de banho. A banheira de espuma esperava-a. Aquele encontro matinal estava marcado todos os dias com um infinito cuidado: a luz do sol vinha bater em cheio na janela arqueada!
O reino estava lá fora. As noites deste reino da rainha da barriga grande eram maiores que os dias. Haviam poucas horas de luz e só quando o sol brilhava no céu, as criaturas saíam todas para a rua. Mas, a rainha da barriga grande, não. Tinha um manto rosa descomunal e usava uma coroa de esferas e diamantes onde pousavam os insectos voadores que lhe provocavam cócegas no cabelo. O reino não gostava da rainha porque ela tinha a barriga grande e não desfilava como uma rainha leve e elegante. Andava com os calcanhares levantados para parecer mais alta do que realmente era e dos vestidos aos folhos só lhe saíam pó e migalhas dos bolinhos de mel que gostava de comer a toda a hora. Nunca fora vista em lado nenhum. Mantinha-se só no palacete e pesava tanto que era capaz de não sair do lugar durante dias e dias a fio.
Uma noite, a rainha, furiosa e farta de não se poder mexer, empinou a barriga com tanta raiva que caiu da cama, rebolou pelo salão do palácio, saiu pela janela e acabou no fim das escadas a olhar para o céu. Naquela altura, rebentou um relâmpago gigante a noite iluminou-se e fez-se um dia glorioso. 
A partir de então, os habitantes do reino passaram a ter dias maiores que a noite e a rainha da barriga grande passou a vir sempre ao jardim receber o reino e o sol redondo e dourado que àquela hora acendia no céu escuro da cor dos bolinhos de mel.

cristina néry

domingo, 9 de dezembro de 2012

A menina Julieta


Há uma buganvília de ramos muito fortes a crescer na janela de minha casa. De manhã, abre em juba e estala em violeta com a luz.
Era uma vez a menina Julieta que tinha a mania de falar sozinha. Brincava tanto, tanto, que os dias só chegavam ao fim no fundo da sua cama. Talvez por dia a dia cirandar, Julieta ficava toda avermelhada de tanta correria e com os olhos vivaços até anoitecer. Havia vezes, que quase adormecia em pé até porque não gostava nada de dormir.


Só na chuva, pasmava. Molhava o corpo todo e fugia. A chuva - é nela que o corpo da gente se perde e ganha rapidez – e Julieta transbordava na chuva. O cheiro da terra fazia-lhe comichão nas narinas e dava muitas gargalhadas pegadas umas às outras.


Esta manhã, Julieta acordou muito cedo. Tinha a cara áspera e vagarosa. Esfregou-lhe as mãos e depois soprou-as: assobiou…  E espantou os gatos que estavam espalhados em estendal pela rua.  Espalhados de encontro à chuva, esquisitos na rua àquela hora, com tanta chuva a cair, as patas aninhavam entre as pedras molhadas. É que os gatos não gostam de chuva. Encolhem-se em silêncio bigodes dentro.



Julieta encostou o ouvido à chuva que batia contra a rua e o chão a gotejar. Chover, demora, é durante um dia inteiro. Julieta queria contar as gotas da chuva todas mas nunca conseguia passar das da janela de vidro. E as gotas não paravam nunca. Parecia que, assim, vigiadas por ela, cresciam ainda mais. Sentada nos joelhos, partiu então para parte incerta. Ora, bolas! Fugiu dali e foi bailar com a chuva.

Cristina Néry

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A besta em botão


Depois de um garfo prateado e fresco, as mãos estavam suadas e aproximavam-se.
O fato apertado e justo à medida dos botões de punho amarelos
e o peito forte e farto, em juba.
Ficou com um guardanapo para se limpar.
Sopro a sopro uma rosa vermelha.
Era.


Rita Grácio e Cristina Néry em reescritas

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Perigo a bombordo! Procuram-se piratas e piratarias!

        No âmbito de mais uma edição da Feira do Livro que se irá realizar nos próximos dias 1, 2 e 3 de Julho, no Jardim de Infância de Travanca de Bodiosa, Agrupamento de Escolas de Abraveses, estará presente no dia 2, pelas 10h, a poeta Cristina Néry, autora da história "O pirata que dormia de dia", do livro a publicar As histórias do céu da boca, estando prevista a dinamização de algumas actividades com o grupo de crianças e a visita da cobra Esmeralda Esmeraldina, que acompanha a poeta.

"Dezassete piratas ho-ho-ho  
 e várias garrafas de rum!
  dançam e pulam nas ondas
  sem ir a lugar nenhum!"
Tripulação: Ana Maria Leite (Capitã);   Beatriz (2ª. Capitã); Dalila Sofia (Mestra do Navio)

Imediat@s: Telmo / Daniel / Gonçalo /André Luís/Bernardo/Simão/Tiago André/Tiago Marques/Tiago Albuquerque/Sofia (Mulher de Armas)/Zé Gonçalo/Miguel/Ana Rita/Sofia Alexandra/Lucas/Miguel Maurício


Criadas-de-bordo:Teresa (criada-chefe) / Paula / Lena

Outr@s Crusoes: Jeremias, @ pirata que dormia de dia

Este é o livrinho-objecto e o fantoche Jeremias elaborado pel@s menin@s do Jardim de Infância de Bodiosa, a partir da história "O pirata que dormia de dia" (02_07_09)

















artesãs-mestres: Ana Maria Leite e Teresa


e este um poema da poeta à tripulação: 
dezassete tripulantes a bordo e um mapa desdobrado
cabelos desgrenhados e navio vivo para todo-o-lado
um barulho agudo e ríspido
barbas sujas
e as tábuas rijas por baixo dos pés
assobiadela aberta, de queixos bicudos
piratas dos mares, às velas, respirar!
acende e apaga a lâmpada,
à proa, que é hora de zarpar!

cristina néry